• Karen Eppinghaus

Aldeia Multiétnica - Encontro de Culturas Tradicionais da Chapada dos Veadeiros


Todo ano diversas etnias indígenas se reúnem na Aldeia Multiétnica, que faz parte do Encontro de Culturas Tradicionais da Chapada dos Veadeiros, para uma semana de vivência com outros povos indígenas e visitantes. Este ano consegui ir pela primeira vez, e o que vi e vivi nestes dias por lá foi muito especial.


Um espaço em que muito se falou, mas se escutou ainda mais. Foi preciso entender um tempo diferente, exercitar a humildade, tomar consciência do racismo estrutural que por vezes reproduzimos sem perceber, se deixar encantar, se encontrar nas nossas raízes ancestrais.



Além de ter a oportunidade de conhecer muitas culturas sobre as quais nunca havia ouvido falar, como os Fulni-ô, grupo indígena que habita a região localizada nos arredores do rio Ipanema no estado de Pernambuco, foi possível ver de pertinho e participar dos lindos rituais de cada um desses povos.


A programação da Aldeia conta, ainda, com encontros e rodas conversas com lideranças indígenas, professores, pesquisadores e especialistas, convidados para discutir temas relacionados à causa indígena, como saúde, segurança alimentar, políticas públicas, direito ao território, a relevância da preservação dos saberes ancestrais, o papel das mulheres na resistência indígena, e tantas outras discussões necessárias para se entender a problemática enfrentada por estes povos nos dias atuais.



Cada dia da semana é dedicado a uma etnia, e os anfitriões da festa se esmeram nas suas apresentações, preparando-se desde cedo com as indumentárias, pinturas e suas comidas típicas. Ao final do dia se apresentam, demonstrando suas danças, cantos, lutas e outros costumes, como a corrida de toras.



A Huka-Huka é a tradicional luta dos povos indígenas do Xingu e se inicia com os lutadores girando em círculo no sentido horário, ajoelhando no chão e se encarando mutuamente, em uma postura que imita a onça. A luta termina quando um deles consegue levantar o adversário e derrubá-lo ao chão ou pegar em sua coxa por trás. O vencedor deve encarar também os demais lutadores, sendo considerado campeão apenas aquele que vence a todos os guerreiros.



Após uma demonstração da luta entre dois xinguanos, um campeão brasileiro de Jiu-Jitsu foi desafiado a participar da Huka-Huka, lutando bravamente com dois xinguanos até ser derrotado pelo guerreiro Lappa.



Em uma das manhãs, tivemos uma caminhada até o rio dos Couros na companhia dos Kayapós, aonde todos tomaram banho no poço de águas gélidas. Ou melhor, quase todos, porque euzinha não encarei o frio das águas da Chapada em Julho!!



Como se isso tudo já não fosse mágico, ainda tivemos a rica companhia da Lara! Coisa mais linda é acordar de manhã cedinho e avistá-la voando baixinho até pousar pertinho e puxar um papo com um simpático "olá". Ela é uma arara livre, mas que está sempre por ali, que, no passado, foi um espaço de recuperação de araras. De vez em quando ela permite um carinho na cabeça ou debaixo das asas.



Além de ser um importante instrumento de articulação e fortalecimento dos povos, a Aldeia constitui também um meio de comercialização de produtos indígenas. Isso porque as diferentes etnias indígenas levam seus artesanatos para vender, além de oferecer suas pinturas aos viventes e visitantes que desejam ficar tão lindos quanto eles.


A minha pintura foi feita por uma indígena da etnia Kayapó, que utiliza uma varinha feita do talo da folha de Inajá e tinta de jenipapo. Mas atenção: as pinturas levam uma semana para sair!! Por isso eu só pude fazer uma pequena no braço. Mas queria mesmo era uma bem linda no rosto. Quem sabe ano que vem!?



A experiência é extraordinária! Recomendo muito a todos que estejam dispostos a desconstruir a visão estereotipada que aprendemos com os livros das escolas, jornais e revistas e com os discursos dominantes disseminados pelos detentores do poder, sempre de olho nas terras que eles protegem.


Proteger os povos indígenas é proteger também o meio ambiente e a nossa biodiversidade!


É importante estarmos disponíveis para ouvir o que eles têm a dizer, ver de perto sua cultura, sentir a sua espiritualidade, compartilhar de seus saberes ancestrais. Tive uma conexão realmente especial com alguns deles. Quando o português não dava conta da comunicação, o olhar e o toque nos ajudava a entender perfeitamente um ao outro.

No primeiro dia de Aldeia minha lente grande angular quebrou. Pensei em não fotografar e só viver esses dias. Mas ouvi que todos nós que lá estávamos éramos sementes e tínhamos a missão de, ao voltar, contar um pouco do que vimos, contribuindo, assim, para a construção no nosso País de um novo olhar sobre esses povos. Sensibilizar para, unindo-nos a eles, avançarmos na luta pela causa indígena.

Como a fotografia é a melhor forma que eu tenho de contar histórias, resolvi sacar minha tele e o resultado foi uma série de fotos com rostos e personalidades. Menos cenas abertas e mais intimidade. Espero que gostem, que se emocionem como eu, que espalhem essa semente por aí, que se juntem a essa luta.


E que estejam lá ano que vem para experimentar também essa rica experiência!


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