• Karen Eppinghaus

Contando algumas histórias


André Cândido Teixeira, mais conhecido como Mestre Andrezinho, é um artista completo: músico, artesão, escritor, poeta, pintor. Andrezinho nasceu na Comunidade Quilombola de Vai-Lavando, área rural do município de Berilo, Vale do Jequitinhonha, aonde mora ainda hoje com sua mulher e sua mãe: suas Marias.


Dono de uma criatividade ímpar, Andrezinho começou ainda criança a esculpir seus próprios brinquedos e até hoje se aproveita das formas orgânicas das madeiras encontradas na mata próxima a sua casa para dar vida a bichos e personagens da sua região. Apenas utiliza o que a natureza lhe disponibiliza, demonstrando uma forte consciência ambiental ao evitar o desmatamento, seja em razão da sua arte ou da agricultura familiar, que é a principal forma de sobrevivência da população da região.


A vida nunca foi fácil em Vai-Lavando. Comunidade rural de uma das regiões do País que mais sofre com a seca e apresenta os mais baixos indicadores sociais do País, Andrezinho conta que nem sempre havia o que comer. Sua mãe utilizava, então, a raiz da Mucunã, um cipó típico da caatinga, para extrair o leite e fazer um mingau que aplacava a fome das crianças.


Embora a situação na região já não seja tão precária como há décadas atrás, ainda hoje a falta de água, a ausência de infra-estrutura e de políticas públicas, o descaso das autoridades e a exploração irresponsável dos recursos naturais (como as crescentes plantações de eucalipto e a devastadora atividade de mineração na região) dificultam bastante a vida da população que, ao longo das últimas décadas, passou a buscar novas formas de sobrevivência e de expressão, resgatando sua história, desenvolvendo o sentimento de pertencimento em suas comunidades, mantendo suas tradições e seu rico legado cultural como forma de resistência a esse sistema que tem permanentemente violado seus direitos.


A região, aliás, é formada por incontáveis comunidades quilombolas, descendentes de negros escravizados levados para a região durante o ciclo do ouro, que, com suas ricas manifestações, formaram essa expressiva diversidade artística e cultural do Vale do Jequitinhonha.


Andrezinho conta a história de sua comunidade Vai-Lavando em um de seus escritos, que, de forma muito generosa, comigo foi compartilhado e aqui divido com vocês:

"Quando o Brasil pertencia a Portugal, a nossa região Vale do Jequitinhonha foi explorada pelos senhores de escravos. O trabalho escravo era feito por negros trazidos da África para o garimpo de ouro, que era exportado para Portugal (...) Segundo nossos antepassados contaram (ex: José Gouveia, Camilo Mendes e outros), em Minas Novas existia um Kilombo como sede mais forte, que comandava toda a região: Chapada do Norte, Berilo e outras comunidades remanescentes. Era lá que os escravos sofriam as piores punições quando cometiam alguma infração grave, como tentar fugir, agredir o capitão do mato ou senhores de escravos. Os castigos dos escravos eram ser amarrados no tronco, chicoteados e enforcados em praça pública em Minas Novas. (...) Para fugir do sofrimento, muitos escravos planejavam fugas, fugiam em grupos acampando em lugares estratégicos, locais de montanhas altas, onde eles subiam para avistarem ao longe se o capitão do mato se aproximava. Foi assim que um grupo chegou aqui em nossa comunidade. Fugiram do Kilombo de Minas Novas tentando viver independente. Segundo os contadores da História, os escravos foram descobertos depois de algum tempo, houve tortura, mortes de escravos por castigo, mas a escravidão continuou. Para fazer o garimpo do ouro, os senhores dos escravos planejaram trazer água da região de matinada, através de um rego a água vinha por gravidade para lavar o cascalho onde era catado o ouro. Segundo Camilo Mendes, velho morador da comunidade Portilho, que presenciou o trabalho dos escravos, os negros vinham cavando com a água acompanhando, pegando o nível dos morros até chegar no local da lavagem do cascalho, Bicão (...): ´Um escravo lavando o cascalho do córrego vai-lavando. O outro perguntou: Tá achando ouro aí? Ainda não, respondeu o outro. Então vai lavando, vai lavando!' Foi assim que consagrou o nome da comunidade Vai-Lavando." André Cândido Teixeira, 01.11.2015


Andrezinho também é Capitão do Congado de Nossa Senhora do Rosário. Herança deixada pelo jovem Alê do Rosário, mestre da cultura quilombola e responsável pelo resgate desta tradição na região, que se foi tão precocemente em 2019, aos 30 anos de idade.


A congada, congado ou congo, é uma expressão cultural-religiosa presente em todo o Brasil, que envolve canto, dança, teatro e espiritualidade, e mistura a religiosidade cristã com a memória e a ancestralidade africana. Através da congada são revividos os cortejos que eram realizados pelos súditos para agradecer aos Reis do Congo, e se louva os santos negros, como Nossa Senhora do Rosário, São Benedito e Santa Efigênia, com os quais se identificaram os africanos escravizados que aqui chegaram, aos quais foi imposta a prática do catolicismo.


As festividades ocorrem ao longo de todo o ano, mas é em outubro que acontece a Festa de Nossa Senhora do Rosário, uma das tradições mais fortes da região, que acontece oficialmente desde o ano de 1822, quando a Irmandade de Nossa Senhora do Rosário foi registrada. É um momento importante para a cultura e a resistência negra na cidade, que preserva o legado do povo negro e sua a ancestralidade.


Mais alguns versos cantados por esse querido amigo que a fotografia me trouxe:


Quem estiver pela região do Vale, não deixe de lhe fazer uma visita, ouvir suas histórias, conhecer a sua arte e tomar aquele cafezinho coado na hora pela querida Maria Lúcia, que também é artesã e faz lindos bonecos de pano retratando os personagens da região! Contato: (33) 8857.8286.


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